À minha casa de psicóloga, bem-vinda/o

um convite de psi para psi. com gentileza e um murro na mesa.

A conclusão gritante desta semana para mim foi que embora não tenhamos respostas para tudo no que diz respeito ao burnout noutras profissões “de desgaste” e tenhamos grandes questões relativas à implementação de soluções eficazes para profissionais de saúde e agentes da autoridade, existe um vazio conceptual e empírico no que diz respeito aos psicólogos.

Um vazio de nós, para nós, sobre nós.

E é este vazio de literatura, intervenções… e consciência que acaba por nos empurrar para o fim da linha, para o burnout. Para sermos o fósforo que queimou.

Quando chegamos ao fim da linha, há uma espécie de horizontalidade alarmante na sala de espera da consulta de psicologia. É que embora possam acreditar-se privilegiados e dotados de conhecimentos protetores, os psicólogos, e os especialistas em saúde mental especificamente, encontram-se num paradoxal pé de igualdade com todos os outros pacientes que aguardam a primeira sessão de psicoterapia.

É que saber muito sobre saúde mental e psicologia clínica não vem com a inata capacidade para a auto-intervenção, e por vezes até vem com o risco acrescido de olharmos mais ao sofrimento clínico alheio e não conseguirmos ver o nosso. E isto é quase sempre doloroso, mas muitas vezes também incrivelmente desempoderador.

Culturalmente, os psis também perpetuam o mito do trabalhador saudável, porém de uma forma muito perversa: o psi é um trabalhador que se crê saudável porque sabe facilitar exercícios de meditação, porque prega a gratidão, porque sabe racionalizar, relativizar, focar na resolução dos problemas. E até acreditamos em viver vidas gentis e auto-compassivas. Mas quando eu disse pregar, era pregar mesmo.

Desde o vazio de investigação à escassez de práticas para psis, é como se tivéssemos pensado e tentado resolver os problemas de todos e nos tivéssemos esquecido dos nossos.

Pregamos e criamos. Mas não somos praticantes da nossa própria criação. É que praticar é outra coisa. Estas práticas dirigidas para os outros sob a forma de psicoeducação ou aconselhamento são muitas vezes vazias de experiência de utilização do próprio psicólogo. É possível que pelo caminho se aprenda a tratar o sofrimento em dois extremos: normalizando ao máximo ou negando a sua existência. Nenhuma destas abordagens permite olhá-lo como ele é, e nenhuma conduz à adoção de uma conduta pessoal ou profissional diferente ou mais benéfica para o próprio.

Mas nós sabemos falar. Uns com os outros. E até falamos disto!

O problema não é não se falar do assunto.

É mais que estar em burnout é visto como “parte do trabalho”; em muitos círculos profissionais esta é tratada como “mais uma realidade” da profissão, tal como a instabilidade laboral, a sobrecarga de casos e a ausência de práticas protetoras para o psicólogo.

A supervisão e a terapia individual são excepções importantes.

Estas relações são muito valiosas para garantir que nas nossas vidas há alguém que nos cuida enquanto cuidamos, que nos confronta com a realidade do nosso estado emocional e físico e que promove em nós a psicoeducação que damos aos outros, e nos obriga à implementação de comportamentos a que não nos temos dado.

Então vamos conversar. Anda daí!

Vamos agendar a tua consulta.
Vamos combinar a tua supervisão.

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Em casa de psicólogo, o autocuidado é para os outros