Mariana Linharelhos Mariana Linharelhos

À minha casa de psicóloga, bem-vinda/o

um convite de psi para psi. com gentileza e um murro na mesa.

A conclusão gritante desta semana para mim foi que embora não tenhamos respostas para tudo no que diz respeito ao burnout noutras profissões “de desgaste” e tenhamos grandes questões relativas à implementação de soluções eficazes para profissionais de saúde e agentes da autoridade, existe um vazio conceptual e empírico no que diz respeito aos psicólogos.

Um vazio de nós, para nós, sobre nós.

E é este vazio de literatura, intervenções… e consciência que acaba por nos empurrar para o fim da linha, para o burnout. Para sermos o fósforo que queimou.

Quando chegamos ao fim da linha, há uma espécie de horizontalidade alarmante na sala de espera da consulta de psicologia. É que embora possam acreditar-se privilegiados e dotados de conhecimentos protetores, os psicólogos, e os especialistas em saúde mental especificamente, encontram-se num paradoxal pé de igualdade com todos os outros pacientes que aguardam a primeira sessão de psicoterapia.

É que saber muito sobre saúde mental e psicologia clínica não vem com a inata capacidade para a auto-intervenção, e por vezes até vem com o risco acrescido de olharmos mais ao sofrimento clínico alheio e não conseguirmos ver o nosso. E isto é quase sempre doloroso, mas muitas vezes também incrivelmente desempoderador.

Culturalmente, os psis também perpetuam o mito do trabalhador saudável, porém de uma forma muito perversa: o psi é um trabalhador que se crê saudável porque sabe facilitar exercícios de meditação, porque prega a gratidão, porque sabe racionalizar, relativizar, focar na resolução dos problemas. E até acreditamos em viver vidas gentis e auto-compassivas. Mas quando eu disse pregar, era pregar mesmo.

Desde o vazio de investigação à escassez de práticas para psis, é como se tivéssemos pensado e tentado resolver os problemas de todos e nos tivéssemos esquecido dos nossos.

Pregamos e criamos. Mas não somos praticantes da nossa própria criação. É que praticar é outra coisa. Estas práticas dirigidas para os outros sob a forma de psicoeducação ou aconselhamento são muitas vezes vazias de experiência de utilização do próprio psicólogo. É possível que pelo caminho se aprenda a tratar o sofrimento em dois extremos: normalizando ao máximo ou negando a sua existência. Nenhuma destas abordagens permite olhá-lo como ele é, e nenhuma conduz à adoção de uma conduta pessoal ou profissional diferente ou mais benéfica para o próprio.

Mas nós sabemos falar. Uns com os outros. E até falamos disto!

O problema não é não se falar do assunto.

É mais que estar em burnout é visto como “parte do trabalho”; em muitos círculos profissionais esta é tratada como “mais uma realidade” da profissão, tal como a instabilidade laboral, a sobrecarga de casos e a ausência de práticas protetoras para o psicólogo.

A supervisão e a terapia individual são excepções importantes.

Estas relações são muito valiosas para garantir que nas nossas vidas há alguém que nos cuida enquanto cuidamos, que nos confronta com a realidade do nosso estado emocional e físico e que promove em nós a psicoeducação que damos aos outros, e nos obriga à implementação de comportamentos a que não nos temos dado.

Então vamos conversar. Anda daí!

Vamos agendar a tua consulta.
Vamos combinar a tua supervisão.

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Mariana Linharelhos Mariana Linharelhos

Em casa de psicólogo, o autocuidado é para os outros

Tenho vindo a descrever-vos que a idade e o sobre-envolvimento são dois dos fatores de risco distintivos do burnout em psicólogos. Pois bem. E fatores de proteção? Algumas investigações sugerem que o uso do humor como estratégia de coping e a auto-compaixão são bons sítios para começar. Mas o mais importante é:

  • A percepção de que temos competência e controlo sobre os processos e o setting terapêutico

  • O suporte social, especificamente de colegas de trabalho e supervisores

  • As atividades de lazer, de auto-cuidado e promoção da saúde física

É como uma poção de 3 aplicações: A relação do meu self com o meu trabalho, a minha relação com os outros da minha espécie, e a minha relação com a minha carcaça biológica que precisa de ser mantida para lidar com este trabalho intelectual todo.

Só que não.

É que uma resposta de stress que é crónica não acontece só na nossa cabeça. É um processo fisiológico que nos destrói por dentro - mas não começa pela alma, começa pelo sistema nervoso central. É por isso que o burnout tem consequências graves para a nossa saúde física.

Apesar de tudo, estamos aqui para falar de intervenções psicológicas. E esta, infelizmente, é uma conversa curta.

  • Há pouquíssimas intervenções dirigidas e testadas com psicólogos clínicos

  • Há apenas 1 estudo comparativo da eficácia destas intervenções

  • O resumo é: as intervenções baseadas no mindfulness podem contribuir para a diminuição do stress nos psis mas não existe clareza quanto à eficácia das restantes (formações, estratégias de auto-cuidado, abordagens baseadas na psicoterapia) e parece haver algum benefício em incluir elementos de auto-compaixão

Existe um estudo em que se utilizou treino de competências da Terapia Dialética Comportamental num grupo de estagiários. Estes apresentaram sofrimento psicológico reduzido e aumentaram o seu envolvimento, flexibilidade psicológica, estabilidade emocional e mindfulness.

Este ano, foi publicado um estudo piloto de um RCT com uma intervenção de sessão única para reduzir o burnout em psis juniores. Não funcionou. Mas na avaliação qualitativa da intervenção os psis reconheceram…

Que a sessão era útil para utilizar junto dos pacientes.

Parece saído de uma anedota. Mas não é. Infelizmente.

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Mariana Linharelhos Mariana Linharelhos

Em casa de psicólogo, o burnout "depende"

Eis-me então, em frente a um conjunto de dados preocupantes acerca do burnout nos psis. Mas como é que aqui chegámos? O primeiro estudo publicado acerca deste fenómeno em psicólogos é de Ackerley e colaboradores, publicado em 1988. Diz-nos que:

O psicólogo clínico que entra em burnout é jovem, tem baixo rendimento, tem acesso reduzido a psicoterapia individual, tem a percepção de descontrolo no setting terapêutico e está sobre-envolvido com os seus pacientes.

Volvidos quase 40 anos, o panorama não mudou muito. Existem algumas comunalidades com outras profissões: a carga excessiva de trabalho, o baixo suporte social no contexto profissional e o conflito-trabalho família são fatores de risco para o burnout nos psis.

Porém, existem também especificidades.

Então o burnout nos psis depende de quê?

O burnout é mais frequente nos psis mais jovens.

Além disso foi examinada de que forma a idade vs. a experiência profissional contribuem para o burnout. Concluiu-se que a idade (e talvez a experiência de vida) é mais protetora do que os anos de prática clínica.

É que com o tempo aprende-se a regular melhor as emoções, os nossos valores constroem-se, as nossas prioridades estabelecem-se, e as nossas expectativas ajustam-se. E não é que viver seja relativizar - mas é um bocadinho, porque se torna mais fácil reenquadrar o trabalho, e o stress que dele vem, no panorama maior da nossa vida.

A diferença não é a experiência profissional, é a maturação emocional.


O sobre-envolvimento com os pacientes é um fator de risco potencialmente único nos psicólogos.

As relações terapêuticas que os psis estabelecem com os seus pacientes requerem investimento emocional. Por um lado, psis mais envolvidos têm maior sensação de realização pessoal; por outro, psis sobre-envolvidos experienciam maior nível de exaustão emocional.

Que é um sintoma de burnout.


Então, o sobre-envolvimento, que faz muitas vezes parte da cultura de formação dos psicólogos, é um fator de risco para… a nossa saúde?

E tem consequências negativas para a nossa prática?

Sim.

O sobre-envolvimento importa porque, ao contrário dos psis em contexto hospitalar, o burnout dos psis em clínica privada parece estar mais proximamente ligado à natureza, volume e exigência do trabalho emocional.

Não é porque “o patrão” ou porque “o horário”.

É porque o trabalho é naturalmente difícil, requer regulação constante das nossas necessidades e reflexão e auto-crítica constante da nossa conduta profissional.

E por isso, o que funciona para os outros, não funciona para nós.


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Mariana Linharelhos Mariana Linharelhos

Em casa de psicólogo, o burnout é "um problema dos outros"

It all begins with an idea.

Neste outono o meu calendário de formação incluía um curso de Gestão do Stress e Prevenção do Burnout pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Não me entendam mal, eu sou psicóloga a tempo parcial e nerd a tempo inteiro, então nem sempre concluir o meu doutoramento é um desafio suficiente. A constância da dificuldade na escrita dos artigos e da tese chega a ser aborrecida, e eu às vezes também preciso de novas dificuldades para refrescar as ideias. Então lá fui eu. Ora online, ora presencialmente, reatar as discussões do curso de Primeiros Socorros Psicológicos em Crise e Catástrofe, que tinha deixado pendentes há 6 meses atrás, aprender sobre as estratégias de gestão do stress e de auto-cuidado para profissionais de saúde e agentes de autoridade. No final, e depois de ter proferido muitas opiniões e críticas gentis à minha própria prática profissional e relação com o trabalho, decidi escrever sobre o burnout especificamente nos psicólogos clínicos.

E então veio o abrir de olhos.

Aqui vai:

  • Não há consenso, na literatura, a respeito da incidência e prevalência do burnout em Psicólogos. No mundo em geral, em Portugal em particular.

  • Alguns estudos com profissionais de saúde sugerem que a prevalência pode chegar aos 43.2%, dependendo dos critérios utilizados.

  • Apesar de serem conhecidos alguns dos fatores de risco e proteção para o burnout nos psicólogos, existem pouquíssimas intervenções testadas e consideradas eficazes.

Então o que é isso do burnout?

O burnout é teoricamente o resultado do desfasamento entre as competências de um profissional e as exigências do seu contexto de trabalho, cuja repercussão é uma resposta crónica e severa de stress.

O burnout envolve então 3 dimensões/sintomas principais:

  • Exaustão emocional: sentir-se emocionalmente drenado, sem energia para fazer face às exigências do trabalho, desmotivado e que não tem mais para dar

  • Despersonalização: sentir-se emocionalmente distante ou manter uma perspectiva cínica, sarcástica e negativa acerca do comportamento dos pacientes

  • Realização pessoal reduzida: sentir-se incompetente, ineficaz ou não-realizado no trabalho, ter um diálogo interno excessivamente auto-crítico, e não encontrar significado no trabalho

Apesar de ser inicialmente considerado uma “doença profissional”, as consequências do burnout estendem-se para a saúde mental fora do local de trabalho, saúde física, relações conjugais, familiares e sociais. E nos últimos anos fomos percebendo que o burnout também pode surgir noutros contextos, p.e. no contexto da parentalidade.

No consultório, o burnout compromete a qualidade dos cuidados de saúde que os psicólogos podem prestar. Numa profissão em que existe uma enorme responsabilização pela segurança, saúde e bem-estar dos pacientes, os psis queimam-se para cuidar. Além disso, nem todos os profissionais de saúde lidam com pacientes desafiantes e com quem é difícil estabelecer relações terapêuticas.

Mas nós lidamos. E isso faz toda a diferença.

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