Em casa de psicólogo, o burnout "depende"
Eis-me então, em frente a um conjunto de dados preocupantes acerca do burnout nos psis. Mas como é que aqui chegámos? O primeiro estudo publicado acerca deste fenómeno em psicólogos é de Ackerley e colaboradores, publicado em 1988. Diz-nos que:
O psicólogo clínico que entra em burnout é jovem, tem baixo rendimento, tem acesso reduzido a psicoterapia individual, tem a percepção de descontrolo no setting terapêutico e está sobre-envolvido com os seus pacientes.
Volvidos quase 40 anos, o panorama não mudou muito. Existem algumas comunalidades com outras profissões: a carga excessiva de trabalho, o baixo suporte social no contexto profissional e o conflito-trabalho família são fatores de risco para o burnout nos psis.
Porém, existem também especificidades.
Então o burnout nos psis depende de quê?
O burnout é mais frequente nos psis mais jovens.
Além disso foi examinada de que forma a idade vs. a experiência profissional contribuem para o burnout. Concluiu-se que a idade (e talvez a experiência de vida) é mais protetora do que os anos de prática clínica.
É que com o tempo aprende-se a regular melhor as emoções, os nossos valores constroem-se, as nossas prioridades estabelecem-se, e as nossas expectativas ajustam-se. E não é que viver seja relativizar - mas é um bocadinho, porque se torna mais fácil reenquadrar o trabalho, e o stress que dele vem, no panorama maior da nossa vida.
A diferença não é a experiência profissional, é a maturação emocional.
O sobre-envolvimento com os pacientes é um fator de risco potencialmente único nos psicólogos.
As relações terapêuticas que os psis estabelecem com os seus pacientes requerem investimento emocional. Por um lado, psis mais envolvidos têm maior sensação de realização pessoal; por outro, psis sobre-envolvidos experienciam maior nível de exaustão emocional.
Que é um sintoma de burnout.
Então, o sobre-envolvimento, que faz muitas vezes parte da cultura de formação dos psicólogos, é um fator de risco para… a nossa saúde?
E tem consequências negativas para a nossa prática?
Sim.
O sobre-envolvimento importa porque, ao contrário dos psis em contexto hospitalar, o burnout dos psis em clínica privada parece estar mais proximamente ligado à natureza, volume e exigência do trabalho emocional.
Não é porque “o patrão” ou porque “o horário”.
É porque o trabalho é naturalmente difícil, requer regulação constante das nossas necessidades e reflexão e auto-crítica constante da nossa conduta profissional.