Em casa de psicólogo, o burnout é "um problema dos outros"
Neste outono o meu calendário de formação incluía um curso de Gestão do Stress e Prevenção do Burnout pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.
Não me entendam mal, eu sou psicóloga a tempo parcial e nerd a tempo inteiro, então nem sempre concluir o meu doutoramento é um desafio suficiente. A constância da dificuldade na escrita dos artigos e da tese chega a ser aborrecida, e eu às vezes também preciso de novas dificuldades para refrescar as ideias. Então lá fui eu. Ora online, ora presencialmente, reatar as discussões do curso de Primeiros Socorros Psicológicos em Crise e Catástrofe, que tinha deixado pendentes há 6 meses atrás, aprender sobre as estratégias de gestão do stress e de auto-cuidado para profissionais de saúde e agentes de autoridade. No final, e depois de ter proferido muitas opiniões e críticas gentis à minha própria prática profissional e relação com o trabalho, decidi escrever sobre o burnout especificamente nos psicólogos clínicos.
E então veio o abrir de olhos.
Aqui vai:
Não há consenso, na literatura, a respeito da incidência e prevalência do burnout em Psicólogos. No mundo em geral, em Portugal em particular.
Alguns estudos com profissionais de saúde sugerem que a prevalência pode chegar aos 43.2%, dependendo dos critérios utilizados.
Apesar de serem conhecidos alguns dos fatores de risco e proteção para o burnout nos psicólogos, existem pouquíssimas intervenções testadas e consideradas eficazes.
Então o que é isso do burnout?
O burnout é teoricamente o resultado do desfasamento entre as competências de um profissional e as exigências do seu contexto de trabalho, cuja repercussão é uma resposta crónica e severa de stress.
O burnout envolve então 3 dimensões/sintomas principais:
Exaustão emocional: sentir-se emocionalmente drenado, sem energia para fazer face às exigências do trabalho, desmotivado e que não tem mais para dar
Despersonalização: sentir-se emocionalmente distante ou manter uma perspectiva cínica, sarcástica e negativa acerca do comportamento dos pacientes
Realização pessoal reduzida: sentir-se incompetente, ineficaz ou não-realizado no trabalho, ter um diálogo interno excessivamente auto-crítico, e não encontrar significado no trabalho
Apesar de ser inicialmente considerado uma “doença profissional”, as consequências do burnout estendem-se para a saúde mental fora do local de trabalho, saúde física, relações conjugais, familiares e sociais. E nos últimos anos fomos percebendo que o burnout também pode surgir noutros contextos, p.e. no contexto da parentalidade.
No consultório, o burnout compromete a qualidade dos cuidados de saúde que os psicólogos podem prestar. Numa profissão em que existe uma enorme responsabilização pela segurança, saúde e bem-estar dos pacientes, os psis queimam-se para cuidar. Além disso, nem todos os profissionais de saúde lidam com pacientes desafiantes e com quem é difícil estabelecer relações terapêuticas.
Mas nós lidamos. E isso faz toda a diferença.